quarta-feira, 7 de março de 2012

Já queimou o seu mendigo hoje?






O ser humano é mesmo uma criatura observadora, inquieta. Por conta da curiosidade inata, botou a grande roda da história pra rodar (antes mesmo que ele próprio inventasse a roda e a mentira), adaptou-se às desgraceiras da vida, e não foi dizimado pela força do ecossistema, conforme outros desafortunados seres rastejantes, voadores e aquáticos. 
Porque tem perspicácia, o Homem peitou os vírus, bactérias, seres peçonhentos, ornitorrincos e a própria ignorância. Então, ele descobriu que os trovões no céu não eram as broncas dos deuses, que a Terra não terminava num enorme precipício, e que as sanguessugas não eram mais a melhor opção para se tratar febre ou loucura. 
Um dia, num passado muito remoto, enquanto mirava os fenômenos da natureza inóspita, algum nosso ancestral cabeludo, amuado numa gruta úmida, presenciou um raio atingindo a relva seca, provocando um descomunal incêndio. Ao admirar tal mágica desgraça, cismou: “que maravilhoso seria seu eu pudesse também produzir faíscas flamejantes...” (foi com estas palavras que ele se referiu às descargas atmosféricas). 
Daí começou toda a mística do Homem com o fogo, e que perdura até os dias de hoje. Vejo, por exemplo, pela janela de casa, que Dona Iolanda, minha senil vizinha, utiliza um isqueiro para atear fogo num montinho de lixo que ela juntou sobre a calçada. “Isto aí não pode, Dona Iolanda!”, repreendo a septuagenária incendiária de detritos. 
Então, a partir da observação de um relâmpago, alguém começou a esfregar pedra contra pedra, caroço contra caroço, tíbia contra tíbia (naqueles tempos desprovidos de máfias das funerárias, havia muitos ossos e carcaças disponíveis sobre as planícies), graveto com graveto. Enquanto muitos debochavam dos experimentos (há sempre vários espíritos-de-porco torcendo para que os nossos projetos simplesmente deem errado), esta cavernosa e sonhadora criatura bípede relevou tanta inveja e persistiu nos exercícios de fricção. 
Vocês sabem: água mole em pedra dura... De tanto insistir em atritar a madeira seca, eis que um aquecimento tal fez nascer a fumaça e uma labareda amarela que feria a pele, doía à beça, algo incrível que foi batizado “fogo”. Nunca antes na Pré-História daquele mundo, alguém fabricara relâmpagos, ou melhor, fogo. 

Movidos pelo medo de serem dominados pelos mais espertos, outros Homens desenvolveram, aperfeiçoaram a técnica inflamável. A prática se difundiu largamente entre as tribos, em vários cantos do planeta, e o Homem finalmente dominou aquele milagre. 
Com um baita norráu nas mãos, o ser humano percebeu que o fogo era mais poderoso do que se supunha no princípio. As chamas faziam mais que, simplesmente, queimar o mato seco. Maquiavélico — antes mesmo do nascimento de Maquiavel — o Homem amarrou uma touceira na extremidade de um porrete, criando assim uma ferramenta interessantíssima que foi denominada “tocha”. Com ela, poder-se-ia enxergar no escuro, espantar muriçocas, aquecer-se nas noites gélidas, afugentar predadores, caçar pequenos animais, amedrontar os algozes de outras tribos, capturá-los, machucá-los, destruí-los, por que não... 
Quando alguém descobriu (provavelmente, uma mulher brincando de cozinhadinho) que carne de caça assada era muito mais saborosa do que em seu estado natural, eis que surgia o churrasco, uma das mais relevantes invenções da Humanidade, juntamente com o vinho, a penicilina, a camisinha e o sexo sem fins reprodutivos. 
Mas deixemos de pilhéria e prossigamos neste sério ensaio etílico-filosófico. Um velho adágio adverte: com fogo não se brinca. Mas a inquietude do ser humano não é brinquedo. Trata-se de uma criatura que jamais se contenta com aquilo que tem. Confiante por ter dominado do fogo, o Homem deu a ele novas utilidades. 
Queimou a argila. Confeccionou utensílios, potes, tonéis. Esquentou comida. Ferveu água do rio em vasilhames, tornando assim o banho muito mais agradável durante o inverno. Incinerou os membros mortos do clã para afugentar as moscas, os chacais e o mau cheiro. Tratou as feridas infectadas, flambando pústulas com o mister das brasas. Estancou sangrias difíceis. Cauterizou os umbigos dos nascituros. 
Areia, fogo, calor: virou um vidro. Queimou pedras: nasceu o metal. Moldou lanças, espadas e demais instrumentos cortantes de se ferir os inimigos. Esquentou o azeite em caldeirões para despejá-lo no lombo dos invasores. Protegeu castelos. Manejou a dor. Torturou inimigos. Promoveu inquisições. Ameaçou físicos, matemáticos, filósofos. Destruiu em fogueiras toda sorte de bruxos entusiastas da ciência, inimigos políticos e mentecaptos sem qualquer valia social.  
Notem aí: o Homem evoluiu, evoluiu, evoluiu. Pra frente é que se anda, não é mesmo?! E então... Tubos de ensaio. Alquimia. Poder. Alguém trouxe algo chamado pólvora. Pistolas. Garruchas. Rifles. Combustão. Lesão. Morte. 
Indústria. Motores. Explosão. Velocidade. Borracha. Pneus. Automóveis. Aviões. Balas. Bombas despejadas ao léu. Cogumelos atômicos. Dizimação em massa. Domínio. Epor aí foi... 
Mas fogo também é diversão. Cana de açúcar. Alambique. Garapa. Água ardente. Porre. Fogo. Paixão. Sexo. Treponemas. Foguetes. Rojões. Vapores. Sauna. Tabaco. Erva queimada. Doidura. Fundí de chocolate. Obesidade. Diabetes. Velas. Velas de 7 dias. Cultos. Pregações. Rebanhos. Paz de espírito. Dominações sagradas. 
Fiz toda esta retrospectiva para chegar, enfim, à notícia. Um dos passatempos prediletos dos jovens abonados da atualidade é atear fogo em gente que vive nas ruas, os segregados sociais. A prática malvada difundiu no país desde que o índio Galdino foi morto por um grupo de adolescentes entediados em Brasília, nos anos 90. 
De lá pra cá, filhinhos-de-papai inculto-ociosos têm aperfeiçoado a técnica. A mais recente Farra do Fogo Urbano (será que poderíamos denominar assim a diversão destes mimados covardes?!) aconteceu novamente no Deéfi, onde um grupo de adolescentes sapecou dois mendigos que dormitavam à sombra de uma árvore. Cometeram o atentado com o mesmo sentimento da Dona Iolanda. No início era só brincadeira. Depois, virou faxina. 


Então é isso, caros leitores: a vida é fogo. Desde a Pré-História. 



Escrito por Eberth Vêncio, médico e escritor. Mais aqui.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A Fome Em Bridi


Ficção















Ato I 

Anda. Você sabe? Quando você vai saber? Anda. Quando você vai saber da verdade? Já está na hora. Ato I. A Fome em Bridi. Naquela angústia sufocante, ela pensou firme no transe involuntário e delirante que estava sendo tudo em sua cabeça. Sangrava junto com o cadáver negro e ereto; e inconstantes sensações lhe molhavam a vagina magra e burguesa. Aliás todos sabem do que falo, caro amigo, e não é de arcadismo sexual. Alucinada segura “aquilo” na mão, e era lindo, pensava. Inconstante. Incontrolável. Intenso, coisas dessas que saem aos milhões em poucos segundos. Suja, sem roupa; essa manhã olhava as montanhas, olha o sol. "Como somos maravilhados, lembra aquele dia em Copacabana?, foi pouco antes do acidente?". O outro apenas pensava: “É mais fácil, mais fácil ser eu do que me amar”. Somos sim maravilhados. Pigarro. Vamos fazer teatro bicharada burguesa, assim viramos todas amiguês e fazemos história. Vamos crocodilos, todos, chamem os sapos também. Do contrário Xô galinhas. Xô galinhas. Pigarro. Ao encontro, Maria Bridi, é esse o nome, adentra onde está as idéias luxuriosas em sua cabeça, onde esta a fome que lhe corta em instante o estômago. É o primeiro indício do que está por vir. Da magnitude, da epopeia humana, pouco explicada por astrológia, umbanda, seita cristã ortodoxa, “esquerda-festiva?”, dos acontecimentos seguintes. Pigarro.

Era o seu último pensamento antes de tais acontecimentos, as montanhas dessa cidade, na hora coincidente. No normal ela é incólume e o carro é o comum, sempre motivo de tristeza, daquele desgosto divino, aquele desgosto materno. Nunca se deu conta de que o homem é feito pra andar, o contrário é a exceção, e pouco conhece a cidade, suas ruas, seus encantos, as paisagens, os becos românticos com beijos noturnos dos apaixonados. É frígida. Sua condição – imposição?- burguesa lhe garante tal abirramento. “Ô Dona vamos trocar uma idéia, me empresta uma moeda aê”. Pálida, gélida - podemos dizer trincada -, meu caro Dinho, graça minha, mas uma graça como ponto de idéias ou ponto de encontro público e plural. “Basta”. O mendigo lhe pedia dinheiro, posso lhe dizer com muita certeza que nesse momento a história começa, eu posso sim dizer. Ele pensou: “Patricinha do caralho, não dá nem o cu vai dar porra nenhuma”, era assim tipo, se chamava Bob, cria de Robert Crumb: camisa xadrez, barba por fazer, “cafuzo preto do rio” - gente de pouca pabulagem, porém de muito agir, segundo Jorge Amado -, ou um Lévi-Strauss amorenado, suburbano, cara escamosa e enrugada. “Sem chance, poucas virtudes sua atrairá alguém à ti”. As montanhas estavam lindas, as árvores bem agitadas pela brisa constante que cortava o Rio de janeiro aquela manhã.  “Até ela” – personagem freqüente -, além das montanhas, do céu azul e de tantas outras coisas maravilhosas que o Rio lhe estava mostrando. 


Afinal o que estava lhe acontecendo, ela ainda não se tinha feito essa perguntar, assim como tantas outras, que se realizadas lhe imputaria uma lástima a menos, seja de excluída, de reduzida ao saldo ou do ordinarismo triunfante. O Cristo Redentor de uma posição muito maliciosa lhe mostrando a beira da bunda. Ela reparou nesse ângulo, onde parece que a bunda nessa inclinação invejável chama mais a atenção do que qualquer outro algo. Talvez seja por esse motivo o pessoal do bairro ser daquele jeito. Joseph Goebbels não teria a menor chance aqui. Era dada a ter essas idéias, chegou em Brasília em tantas vezes e só viu a imagem fálica de um Congresso Nacional em riste feito um pau que se impõe no planalto e centro do Brasil. Um pinto com suas cúpulas esgrotais, feito sacos, bolas, lado a lado. A imagem fálica do arquiteto, quem disse que comunista não faz sexo, sem falar nas orgias santas no Salão Negro do Palácio da Justiça. O pessoal do bairro, essa visão é graças aquele poeta argentino de quem o Trevisan, na nossa Bíblia, escreve muito bem, qual é? “A áfrica namora Cuba, o mais lindo casal, o mais romântico”.

O mendigo foi embora e ela lhe deixara 15 reais, a sobriedade lhe saltando pelos cotovelos, nunca até então, segura em si em sua condição, se questionará sobre a solidariedade pelo ser humano do proletariado, da baixa renda ou dos viciados da cracolância, da área portuária do Rio, do Cavalo Babão, da Conselheiro Mafra, do espaço Conic em Brasília e... , esqueçam Jundiapeba. “Ô inferno”. Em seguida o ser humano sente a veia esquerda pulsar com a possibilidade de ser paparicada logo em seguida, um nojo, um asco inefável, saquem a dor da metrópole tenáz roedores, galinhas mutantes, bichas dos infernos, maléficos, maledicentes, decadentes e depravados. Mas é apenas o começo. Pigarro. Tirou tudo que havia no bolso e entregou ao repugnante mendigo. Imagina a cena, que horror. Faz pouco tempo que tudo começou e Maria Bridi então se deu conta de que estava vestindo um pijama de dormir azul, no meio da rua, com direito a pantufa, caminhando pela grama, observando a cena carioca, as montanhas, o céu azul... carregando sua bolsa típica: Louis Vuitton. Ônibus passam, alguns carregados de seres vivos pálidos, os carros sempre velozes estavam um pouco lentos por conta da chuva que estava a se armar; alguns buzinam loucamente  Deslumbrada caminhava, inerte, não se lembra onde havia dormido, e porque estava só de pijama e pantufas. Parecia encantada, hipnotizada, quando se deu de frente com o mendigo, Bob, teve reação nenhuma. Olhou fundo em seus olhos e em sua alma.


Um ser humano gintê”. Pigarro. Abria a bolsa, a carteira, os bolsos, tudo ainda estava lá, os cartões, vários, ufa. Gente rica é assim, sempre acessível ao consumo. Tira todas as moedas e dinheiro em papel e joga na mão do preto, junto com um capim-pororó. Ele fica maravilhado, porém impugnável, intratável, olhava-a de cima a baixo, impiedoso, ingrato e impertinente. Aquelas migalhas, que ora ou outra farfalham da mesa deles, os boçais, caíam em cheio em sua boca, e uma idéia de restituição moral lhe supria qualquer vergonha que pudesse sentir. Bob foi embora, na fé que tem na pedra, a barriga roncando, o chinelo azul Havaianas e a artéria pulsando. Magro, magro. Pigarro. Ela, que passava então por um jejum de 20 minutos, desde que começou a coisa toda, agora se alinhava ao pé do Cristo, aquele maldito. - Malditos, maldito índio, foi pra isso que surgiu, que horror, quanto perseguição, o que fizeram conosco, exterminaram-nos pelo sangue, em raça, facadas na garganta, o sangue jorrava, bala de revolver, pistola ou espingarda na cabeça, a parte esquerda se perdeu em algumas dezenas de pedaços. No fim todos jogados em valetas, igual as da minha infância.  Onde ficou o futebol em tudo isso? As psicólogas, a camisa da seleção de 1994? Novamente tudo se perde de insignificância. Aqueles malditos, e nos impuseram esse gigante a nós perseguir por toda a eternidade. Como eu os odeio. Ódio mortal, ódio igualmente sanguinário. Um horror. 

Olhou para o chão, tudo sujo, mendigos, ratos carioca, ganância, a praça com nome de índio - um martírio. Os passantes podres ignorantes e obesos. A fome em sua frente. "Mas quiça são 7, 8 ou 9 da manhã, como essas crianças podem ficar com fome por tanto tempo?". Mas o que era aquilo tudo, estava se sentindo patética, como se ao notar dos olhos, chamas maliciosas e manipuladores do gozo eterno que surta em si, lhe tomasse conta das pernas e de tudo. Patética, e aquele pijama azul, e essa chuva que começou agora. Que chuva era aquela? Estava ficando pior ainda. Ela? E que bagulho estava fazendo em um lugar como aquele. Estava fora de si, sempre burguesa e vivendo na maciota agora se dispunha a sair sentir todas as dores do mundo, o que era aquilo, com que direito se permitia tal disposição. Nunca saíra de sua área privada para nenhum outro lugar que não igual ao de seu nivéo social. Sendo burguesa, o pai financiado pelo BB ou através do Instituto de Resseguros do Brasil. Caia uma chuva pontuda. Ao entregar o dinheiro saiu andando e tomando discernimento de tais pensamentos. Apesar do horror, não dispensava uma ponta de auto-estima, como sempre a auto-indigência desavergonhada. 

Estava a pensar em si, além do horror dominante, pois a ponta lhe afere. e todo aquele horror em sua volta, ao que via logo servia de desconstrução, de degenerescência do produto nacional exportado por seus iguais burgueses para lucrar no estrangeiro. Se via, com certo vanguardismo, buscando na sua própria amargura de se ver diante de um mundo real até então desconhecido aos seus olhos e de seu ciclo social, enfim, se via a reforçar a idéia da busca pela originalidade e autoria, gênese do verdadeiro produto nacional. Tudo isso ao funk da Tati Quebra-Barraco e do tango de Juan Bautista Alberdi - esse que diz que a literatura e a idéia de nação surgem através da construção pela desagregação da própria idéia de nação-. Percamos, então, a fome; percamos a vergonha moralista, não a vergonha humanista – como estamos acostumados-. Percamos o pecúlio comum que manda cuidarmos apenas do nosso rabo, nós fazendo auto-impotentes com a fome alheia. Essa vergonha maldita, sua hipocrisia sendo testada há todo o momento e você sempre correspondendo ao lixo das idéias comuns, sempre reproduzindo preconceitos. Seu lixo intelectual, uma algaravia mental detestável. Maldita pequeneza. Maldita Limitação. Maldita minha pessoa. Malditos e mais Malditos. Miseráveis. Miseráveis. Miseráveis. 

Todos sabem o porque das mães mentirem, e sabem também o mal causado na cabeça de seus filhos. Pigarro. Era o encanto na cabeça de Maria Bridi. Inúmeros, maldições até, e a praga da paternidade maldita que não salva ninguém da paspalhice. Estava alucinada. Era uma barata - a chuva carioca -, como se sentia? Como seria se pudéssemos percorrer o estado síntese do condicionamento físico de Bridi naquele momento, seria outra possibilidade, não? “Ave Maria cheia de graça: O Senhor está convosco. Bendita sois vós entre as mulheres: e bendito é o fruto do vosso ventre”. “E bendito é o fruto do vosso ventre”. E bendito serás. Para quem os índios oram, se perguntava ela; impotente sob a chuva de luz que caiu somente alí, nela. "Para quem?" Era o encanto. Dê esmolinhas para o coração de Jesus e para todos os meninos putos do Xerém. Esmolinhas para as meninas putas de Copacabana. “Vamos fazer amorzinho?”. Dê esmolinhas para o coração dos famélicos. Tudo o que você pode na sua condição passional de deficiente cívico, dê as esmolinhas e se retire, recolha-se na sua condição de tirano – Oscar Wilde – pois, em minha condição natural não permanecerei. Suas migalhas paralisantes não me farão grato, muito menos subserviente ao seu sadismo, pensava Bob. E como era lindo.

Pigarro. A chuva continua.. Maria Bridi, paralisada. A vagina molhada. A vergonha e a perturbação de sua condição. Diário de Viagem. Não podemos falar em burrice uma hora dessas, pois há outros fatores mais urgentes. Quanto aos mendigos, seria um cúmulo dizer o contrário, sob a conclusão óbvia que ela chegou, pois; o ser humano mais completo possível é “político, poético e físico” – como bem sabe Pablo Neruda, Claire Varin e Clarice Lispector -. A conclusão óbvia que chegou sumiu logo em seguida. Revoltada, soltou o cabelo, rasgou o pijama, se jogou na lama, a chuva lhe molhou ainda mais. A lama negra lhe sujou o rosto pálido e angelical. Atordoada. “Ave Maria cheia de graça, Bendita sois vós...” Bendito. Bendito. Bendito... Hoje é dia de natal. A calhordice animada está a festejar. "Qualquer hora vou te dizer meia dúzia de coisas sobre o natal..." De tarde choveu uma chuva para socializar o espírito da terra, e a ideologia e a undição social do homem do Cantagalo, da Rocinha... caiu uma chuva grossa que foi pingando árvore, casa, telhado, galinhas, montanhas, roupa no varal. No chão levantava uma poeira porosa e sombreada, ao além, nossos corpos nus e negros cheio de curvas e coca. Rolamos feitos sapos lindamente no cio, copulando ao som mágico da cheia do rio, do funk na vizinha, do vento manso e tropical. – a frequência aumenta – lindo, um gozo de três anos. É nesse momento que perco os algodões do peito. Como sapos no cio, algo que você aprenderia no lado não burguês da cidade. Maldita pequeneza.

O natal foi isso, parado feito sapos a observar a cidade da colina. "Sapos românticos, é o que somos", disse ele. Parei um bom tempo na porta de casa olhando a rua passar, a vizinha japonesa espiar, a mãe reinar tourada. Tédio. Inchaço da artéria esquerda. Ereção. Todos os conjuntos de sedução. A pequeneza de vocês. Limitador. Fora Fu! Irene. Irene. Irene. Vejo você chegando no céu: "Com licença meu branco!". A elevação sob a cueca vermelha em riste ao som do gueto, subúrbio, periferial, insensata e agressiva com sua preocupação para com os ordinários margeados. Gostoso, fora do ar. Já disse; todos os conjuntos de sedução. O “Aí para” abatido; abafado, fanfarrões afetados e suas esposas medíocres, culpados e vitimados, ambíguos, antes de mais nada, tudo em ritmo de suicídio. Sabe como posso te dizer essas coisas na intimidade, está tudo na minha cabeça. Não terei câncer de boca, pois pretendo parar de fumar, quero deixar de lado todas as maldições paternas e maternas ao estalar da coluna. Tudo na minha cabeça e digo com bruto orgulho, morro onde negros, pretos, tacanhos, moreninhos e derivados são a maioria. Mais de oitenta por cento. E todos se respeitam e vivem em plena harmonia racional, na medida do possível, não havendo discriminação, isolamento ou segregacionismo entre os próprios ou com os caucasianos. Se bem que todos são pobres e gozam de forma cênica. Pigarro. Fim da primeira parte. A Fome em Bridi. Ato II.










Sudão, 1993


Ps. Cleopatra de pantufa, alienada e socialmente inata; se ao menos fosse pansexual e fizesse orgias com outras mulheres, juntando amigos gays, amigos heteros, e quem mais desejasse entrar na festa. - Sendo todos limpinhos e respeitosos na nossa condição de frutos terrenos do sexo e do libido divino -. Do nosso jeito. Haveria assim de se ganhar algum respeito em vista da canalhice social a que pertence. Diga, antes de mais nada: respeite minha fome, em seguida lhe profira bofetadas de aviso. E termine esse texto um tanto realista, covarde e pernicioso; como devem escrever todos os homens de espírito livre. Leia a História do Olho, Georges Bataille, e me diga em detalhes quais foram as suas anotações - estou curiosa-. A cachorra dela é um chiuaua que de tanto frequentar pet shops, massagista e manicures para cães, adquiriu um certo discernimento, uma certa inteligência, que se não à altura da minha, no mínimo suficiente a ponto de lhe servir como tesoureiro dos negócios da família. Veja você. Beijos de sua amiga e saudações honrosas. 

p.s. (fotos horríveis)


sábado, 21 de janeiro de 2012






Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de Santa Catarina!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!


De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burgês!... 




Ode ao Burguês - De Paulicéia Desvairada - 1922

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Discurso de Nação e a Primavera Árabe




Ensaio 
(perspectiva orgânica

















Ato I
Poder-se-ia argumentar que a parcela dos trabalhadores incluídos no salário-mínimo é insignificante em relação à força de trabalho total, assim como seu custo trabalhista, o que significa dizer que a evolução demonstrada, de repartição do bolo, cuja lógica pífia de primeiro acumular, não é representativa da situação da classe trabalhadora urbana. Isso quer dizer que o papel da institucionalização do salário-mínimo reveste um significado muito importante para a acumulação de capital do setor urbano-industrial da economia, como bem lembrou Francisco de Oliveira em A Economia Brasileira: crítica a razão dualista.
 
Devo ressaltar que tal idéia segue levando apenas aspectos técnicos, teorias acadêmicas e superlativas marxistas, deixando de forra a singularidade de cada região e suas maracutaias. Pigarro. Imagina que a miséria em que vivemos poderia ser vencida em escala nacional com Deus simplesmente descendo sob nossas cabeças e injetando uma dose divina de altruísmo no coração dos magnatas, acionistas e aristocratas que sempre estiveram no comando. E pensar que o percentual que representa os minimamente assalariados nos números globais do PIB, e aqui eu me refiro ao setor de serviços e comercio que não chega a representar 27% do total, esse percentual é tão insignificante que tendo ciência sob uma ótica humanitária, Miguel Bressano Capacete que nos ajude, poderia termos supridas nossas principais necessidades de seres terrestres que todos somos.

Olha a pequeneza em que vivemos nos assujeitando a essa escala social deprimente e irracional que o dinheiro mal distribuído provoca. Essa desigualdade social monstruosa e pornográfica. Poderíamos afastar essa miséria que tanto envergonha a você e à mim. Um toque de deus e o restante; rico, superior e majoritário nos supriria. Perderíamos esse fator limitador que nos aprisiona. Essa pequeneza de espírito, o ranço classista, o pedestal etnocêntrico, os hábitos burgueses discriminatórios, essa picuinha mesquinha e essa fome em terras de índios. Então cresceríamos juntos e em velocidade exponencial. Seríamos mais fortes e ainda que nossas silhuetas se tornassem rechonchudas seríamos um só, sem diversos temores em nossa consciência de ser humano.

É para a consciência moderna que devemos apelar, por conter o maior grau de incorporação das ideias do direito democrático, como os Gregos nos ensinaram, o que tem nos salvo desde então. Educação acessível e de qualidade, bolsa de estudo digna para os jovens estudarem nas universidades, moradias para os pobres, saúde pública excelente para os idosos, cidades limpas e fábricas humanizadas. Expulsemos os pessimistas, como L.M., que dirão que sistema de ensino superior crescido e nascido na ditadura vai carregar sempre a porra da porcaria que o pariu, sendo esse unamente meu grande ódio, meu ócio e meu ópio. Pigarro. Sinto uma grande vontade de quebrar todos os dentes da sua boca na porrada, ih já passou. 

Perderíamos esse complexo broxante, aterrorizante e por consequência a auto-indugência avergonhada que sempre nos faz repetir o erro, e de novo, e de novo e de novo. Cagando toda a nação e alimentando hábitos preconceito e segregacionistas. Deixaríamos de lado a tristeza e Vladimir Mayakvsky sairia de nossos pesadelos para de fato em algum lugar no Brasil existir homens felizes, ainda que assuma o fato de que em tantos outros predomine apenas a tristeza, por diversos motivos.



Ato II
No século XX, grande pessimismo e preocupação se impunha sobre a ação e o conceito de “Massas”, sendo essa, até certo ponto, e através do século com a disparidade entre as diversas nações industrializadas, salvo algumas discrepâncias, enfim; sendo ela irracional, inculta e beirando a barbárie, algumas estavam sim nesse estado. Mas de modo geral, se discernirmos mais sob o ocidente como bloco, veremos em todas nações algum nível de iniquidade ou com uma estrada a ser seguida, visível e almejada no horizonte, a ponto de ser. Pigarro. È por isso que gosto dos lendários anos 80, queira Deus eu estar certo, pois foi aí que a coisa começou a entrar nos trilhos.

A partir do momento em que as relações sociais pós-capitalismo – bruto, selvagem e egocêntrico -, são substituídas por mudanças econômicas e sociais, partindo sempre dos tímidos, como em todas as revoluções. Então, em algum momento, a nova classe burguesa nascerá com um gênese diferente, é essa a aposta, podemos dizer com um pouco de otimismo, há defensores ao nível de Raúl Antelo. Com base nessa espectativa e otimismo podemos analisar o termo “Massa”, “assalariado”, “proletário”, “Alex Sobral”, para conhecer a coisa toda e quebrar essa barreira comportamental e cultural, ainda que essas expressões tragam consigo um caráter depreciativo que herdou do pensamento político conservador. Pigarro.

No alvorecer desses dias históricos que vivo, na celeuma das minhas tardes a subir montanhas e percorrer túneis ao samba próprio dos olhos inchados, as dores cotidianas com meu tênis adidas aos fragalho, na tristeza religiosa da oito horas da noite onde a bipolaridade afetiva predomina, me sento para me acalmar e lembrar que nos tempos em que vivo tenho o privilégio de ver crápulas como Silvio Berlusconi,  Abidini Bem Ali e Bashar Assad, se fecharem atrás das cortinas, posso ver surgir uma nova classe mundial de artístistas e pensadores, ver surgir uma nova classe burguesa conectada, seja através ou sob influência da primavera árabe, que procura legitimar seu poder e participação na sociedade ancorada justamente nos princípios democráticos de igualdade, liberdade e justiça material.

Uma consciência mundial que procura se postar inferior a perfeição auto-destrutiva da sociedade austro-húngaro, nirvana e ópio social, e muito a frente da barbárie atribuída a tudo que é de “Massa” ou cria dela – palavra que se torna termo superado, sendo cada vez mais frequente arquétipos de análises que utiliza o termo “comunidade” ou “distrito”. Como louvor, podemos concluir que forças morais estão se movendo e abrindo espaço para uma maior ideia de unidade, liberdade e igualdade. Desmentindo a máxima visão conservadora e elitista do francês Gustave Le Born, que atribuía a barbárie como único e solitário caminho para as civilizações cuja elite conservadoras, intelectual ou aristocrática, foram impedidas de atuar. Uma vez que o progresso é uma consequência da desobediência e da rebelião. 






sábado, 14 de janeiro de 2012




sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

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Ato VI
 
Ainda não senti o ano de 2012, vocês sentiram? Essa minha escrita é a da morte, as letras falham. Enfim. Estou nem aí para a inclinação dos japoneses. Pigarro. Sabe, você está em São Paulo, aquela cidade parece uma planta de maconha, mas você está no crack e está no meio da rua. Você está todo louco do crack, ele te perturba e te destrói, mas você sabe como se sente. Ele te transformou em um primata, igual aqueles que matam por comida.

Me vendo você pensa em sair rastejando em direção ao bueiro, ao esgoto, ao submundo sórdido. Você engatinha e vai se remoendo, se ralando na sargeta na direção que lhe cabe. Segue de mansinho de mansinho, todo sujo, alucinado, sanguinário e amedrontador. Você chega no bueiro e rápido enfia a mão tentando se esconder. Uma e depois tenta a outra. Assim, meus olhos sob você queima feito ácido. Os mais maldosos dizem ser falha moral. Os mais pomposos falam em incívilidade e o direito que eles teêm como bons burguêses de não lhe ver como animal que és.

Mal posso te olhar e em ti caí a idéia de se juntar ao que de fato você pertence, ao sórdido e ao feio; ao lírico do obscuro, cobaia ingênua – como Janet Malcolm tenta o tempo todo nos enfiar goela a baixo -, um delírio babilônico, meu sofrimento, todos os conjuntos de sedução, nós dois transando na chuva feito sapos, todas as espadas no meu peito, a filosofia da Miséria e a Miséria da Filosofia. Só penso nessa urbanidade pós-catástrofe do final dos séculos onde os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida. 

A estética da fome e a literatura do lamúrio, tudo junto e misturado nessa "prosa modernista" feito Antônio Fraga, Marcelo Mirisola e Carlos Drumond, do qual eu estou bem mais para que o concretismo do Oswaldo de Andrade. Pigarro. Bucetada 1935. Sussurros, gritos, você se arranha na calçada alucinado tentando fugir de nós. O que fizemos pra você? Você nem pensa, olha como se joga no esgoto se debatendo feito cabrito na faca. Olha sua cor preta, suburbano, subdesenvolvido, terceiro-mundista, Classe E paulistana, - "A classe C você xinga, agora mêxxe com a classe E. A chapa esquenta". Balbucia algo idêntico a uma criança, complexo de édipo ao contrário - "Tô fora" -, monoglota afro-brasileiro. A Fome em Bridi, Ato VI. Pigarro.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Nascido no outono, morto no inverno ou 1995


Ensaio
(ou Possibili Illegale







Ato I

Eu não entendo. Ter um amante é detestável. Eu acho que um amante ama apenas o amor. Não o outro, o oposto. Eu amo janelas abertas e lençóis frescos. A tentação de existir. Amo a liberdade da vida sem calças. Amo Deus. Eu amo você enquanto me ama, pois só amamos a quem nos retribui o amor. Isso não é Dostoievski.

Esse é um filme que nunca foi feito. Você fala a verdade, Mademoiselle. Esse é um filme que ninguém viu. Se minha mão esquerda pode tocar minha mão direita, como toca as coisas. Tocar enquanto toca. Por que, tocando a mão de um outro, não estarei eu tocando o mesmo poder de unir as coisas que eu toquei com minhas mãos?

No entanto... o domínio, percebemos rapidamente, é ilimitado. Se pudermos mostrar que a carne é uma noção fundamental que não é nem união nem composição de duas substâncias. Mas pode ser concebida em si mesma, sem cortes ao ser aranhada na calçada.  

Ato II
Se o visível tem uma relação consigo mesmo, e em toda sua extensão materialista, que me atravessa e me constitui como eu vejo observando este círculo, que não sou eu que crio, mas que cria a mim, essa espiral do visível com o visível pode seguir em frente e animar outros corpos, assim como o meu.

E eu poderia compreender como essa onda nasce em mim, como o visível adiante é simultaneamente minha paisagem. Eu posso entender que em outros pontos, também, se fecha sobre si mesmo e que há outras paisagens além da minha.

Quando nos exprimimos, nós dizemos mais do que desejamos. Achamos que expressamos o individual, mas nós expressamos o universal. Eu tenho frio. Sou eu que digo "Eu tenho frio". Mas não sou eu que sou ouvido. Eu desapareci entre esses dois momentos do discurso. Tudo que resta de mim é o homem com frio, e esse homem pertence a todos. 

Ato III
Onde você vive? Na linguagem, e não posso me manter quieto em toda minha literatura. Ao falar, eu me lanço naquele lugar desconhecido uma terra estrangeira. E subitamente me torno responsável por ela. Eu me tornei universal. Tornei o que sempre desejei ser, responsável único por minha consciência afinada.

Para me dar conta, com humildade, com cuidado, em termos da minha própria carne, a universalidade com que eu descuidadamente me lanço à negligência. Essa é minha única possibilidade, esse é meu único mandamento. Em algum momento terremos a noção exata de nossa profunda iniquidade e o discernimento nos levará a um domínio único sobre nossa solidão.

Eu disse que eu amo. Essa é a promessa. O que você perdeu? O que é essa escuridão? Ou melhor, o que é um governo? Eu disse que eu amo. Um grupo de pessoas que governa.  "Não", disse ele, com um sorriso pálido, "um governo é a sua aceitação em deixar-se governar", Jean Luc Godard sabe.

Mas isso é ridículo. Isso significaria que não há nada lá em cima. Verdadeiramente nada, e sabemos que apenas se conforta quem não necessita desse governo. Exatamente o que isso quer dizer, para finalmente merecer o nome. É isso que se chama escuridão - o nome que foi dado a mim. Precisamente. Auto-retrato. Não autobiografia. 


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O que passou, passou?



Crônica


Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo é que era morrer.
Morria gente todo dia, e morria com muito prazer, já que todo mundo sabia que o Juízo, afinal, viria, e todo mundo ia renascer.
Moria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor, como se morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto, um lenço no vento, um suspiro e pronto, lá se ia nosso defunto para a terra dos pés juntos.


Dia de anos, casamento, batizado, morrer era um tipo de festa, uma das coisas da vida, como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado, praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que tem que morrer, tinha coisas que tem que matar.
A honra, a terra e o sangue praquele lugar.


Que mais poderia um velho fazer, nos idos de 1916, a não ser pegar pneumonia, deixar tudo para os filhos e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto de Santo Inácio Acapulco, Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.


Almoçou e fez a barba, tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora a morte tem limites.
E, em caso de necessidade, a ciência da eternidade inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.




Paulo Leminski

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ostracismo sexual ou modernidade estrábica

Ficção













Ato I

De antemão a percepção da realidade para mim é uma verdade pontual. Não consigo ficar em um salão, por mais nobre, assistindo um Padre palestrar. Me provoca inquietude, comichões até. Os escândalos anunciados, as práticas sado masoquista com crianças, estupros, mulheres grávidas, assassinatos e um sub-mundo do bebê confidencial. “Aí se comento com alguém do lado: quantos meninos será que esse aí já comeu? Eu é que sou o pervertido?”. O rapaz ficou irado, se sentiu indignado de estar ao meu lado, achou uma ofensa, um insulto, ameaçou bater-me. Pensei quem é o errado? Pigarro.

Podemos fazer o seguinte, posso escrever sobre praças, flores, pessoas, idéias, iniciativas; ok. Mas toda vez que estiver entediado e triste farei um texto, um conto erótico sobre você. Te imaginando nas situações mais convenientes ao meu bel prazer imaginário e muito exercitado. Pigarro. Toda vez que você disser uma mentira sobre mim, que as aulas da tarde estiverem de morrer, toda vez que o coração me pular memórias pela boca, eu escreverei sobre você. Te destruirei em meus contos, bareback, fist fuck escatológico, chuva prateada e, quem sabe, necrofilia giratória, algo assim. Pigarro. Ou toda vez que eu pensar em desistir do amor e deixar o coração pingando dor, vou escrever com as mãos de quem já esteve com a morte nos braços. Pigarro.




Ato II
Indigente. Ignorante. Ignorante. Inútil sem seios, sem seios, sem Paulão – como Jessé merece gostar. Quem? Quantos já foram? Quantos irmãos são? Quantos amigos? Quantos amigos? Quanto de dinheiro? Quanto de valor? Quantas facadas você já levou? “Tenho respirado um ar mais puro que o de costume, caminhado mais vezes que o necessário e dormido mais tempo que o recomendável. Tudo isso para saciar dentro de mim uma estranha mania de ter sempre ao encoche. De te ver e cobrar nada de ti, de respirar o mesmo ar que o daquele dia em que caminhamos juntos. Tudo para saciar um comichão que em meu coração faz cócegas, faz farra.” Pigarro.

Termina logo essa bobagem, isso não sou eu. Não tenho problemas em lhe bater. De tudo o que chorei tem um pouco do seu desprezo. Quantas vezes você já esteve perto da morte? Pigarro. O menino correu e foi atropelado pelo caminhão, quase perdeu a vida. Idade em torno dos nove anos, loiro. Usava uniforme escolar. A morte agora anda sempre ao seu lado, uma constante, seus olhos mudaram. Pigarro.




Ato III
Você credita à que minha solidão? Diga mais, em que seu sadismo pode me ajudar? Intelectual não vai à praia, dizia Paulo Francis. Vendo você assim, com seu glute emocional à mostra, seu filé sexual - que mais parece um bife podre fora da geladeira -, penso o mesmo. Puta terrestre e ociosa que és, vou te dizer mais: não gosto da sua estética lisa leguminosa e neo-surrealista, porra qualquer, algo assim. Pigarro. Você de quatro sobre a cama me lembra as acnes brotando sangue e pus de seu peito, o nojo, um asco inefável. Pigarro. Posso dizer mais, como você gosta, sou um sádico. Autoflagelo é comigo mesmo, social ou não. Pigarro.  


Certamente não vale nada o que lhe digo, compreendo, sendo eu um vulto que se assomou, sem cerimônia, sem camisinha, sem ser convidado e sem dinheiro, o que mais te move e o que mais provoca nojo. Pigarro. Meu suor sagrada, meu fedor cotidiano, minha fome hereditária, meu discernimento desenvolvido, é bem mais belo que o seu sangue amargo. Meu pau ereto, excitado, irascível e quente lhe cai bem em partes. Assim como minha solidão é mais prazerosa que sua presença avassaladora e sádica. Pigarro. Agora lhes contarei algo próprio meu: por fim, Carmelita, me perdoe por transpor a barreira do nosso amor inexistente, por jogar fora seus pratos verde-oliva pintados à mão e por roubar chocolate de sua área privada, provocando em ti o ostracismo típico dos idiotas que você sempre combateu.











sexta-feira, 10 de junho de 2011

Acervo



Jornalismo


   

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cacete noturno


Jornalismo
(texto não editado)


Cena 1
Bananinha com cobertura de café e chocolate, rico em fibras, também no sabor morango e coco, 74 kal, "coisa de bicha". Ótimo. Se vou ficar a noite inteira atrás de alguém porque não passar comendo?. “Ele não pagou a conta, fiquei dois meses esperando e nada”. Pigarro  “Não tenho cartão Xandi”, ela pareceu nem ouvir, em seguida pega minha moeda e devolve 15 centavos, o mercado está fechando. Sete e meia da noite, vejo que meu celular está sem sinal, sempre nesse mercado acontece isso. Na última vez foi para comprar manga, eu o professor de dança e a secretária, bem diferente desse momento.

O samba ao longe, a voz do cantor, com seu canto senoidal, atinge minha memória com as letras de Noel Rosa. Saio da rua Vidal Ramos, pego a Trajano. Penso fazer nada é bobagem, se ociedade provoca atenção estou ficando maluco pois tenho vontade de dormi por não ter um objetivo claramente detalhado, penso em quem colocou tais idéias nela. Só quando acabar a noite. Um casal passa ao meu lado, acabaram de sair da aula. Caminham na direção de todos. Ela com cara de frígida infringida, se deixa abraçar aristocraticamente como se possuída, usa uma calça jeans e agasalho branco com pelos na toca.

Ele com cara de Rei Nagô excitado anda muito bem. Resmungam palavras melosas enquanto a mão dele caminha sordidamente pelas nâdegas dela. Tudo me lembra um touro mecânico ereto e saltitante. Semáforos continuam funcionando mesmo numa noite de sexta-feira gelada em que ninguém saiu de casa. “Jesus escolheu você para ser um soldado dele, ele te ama e deseja salvar o máximo de alma possível”. Aglair novamente me vem na cabeça. “Tô passada, me tirem dessa cruz”. O ilógico discurso divino, salve sua vida nada de sibaritismo. Ao lado do pastor de fala peremptória, andar firme e racionalidade mínima, dois garotos de programa na praça da figueira. Engraçado, parecem competir pelo mesmo público.

O pastor é o capeta aos olhos de quem frequenta aquela região nesse horário, chamando para uma vida de sacrifícios, devoção, de reprodução do manual bíblico, das simplificações paliativas de deus, da moralidade. Os garotos de programa são os anjinhos, oferecem o céu por pouco mais que o valor de um litro de leite, dão tudo que a carne é possível de receber de prazer e em troca não cobram devoção nem fidelidade, amanhã é possível visitar outros, além de um mínimo de sacrifício físico. O céu é o limite.

Suas armas na batalha pela freguesia são diferentes. O pastor grita, clama por uma atenção não desejada, é espalhafatoso, indelével, anda de um lado para o outro tentando convenser os que passam. Tem olhar ligeiro, capta os meus e designa para mim suas palavras, a noite começa a ficar excitante, no bom sentido.


Cena 2
Já os garotos, centáuros da vida noturna, tão batidos quanto a palavra divina, tão velhos como Maria Madalena, a versão gay da coisa toda, trabalham calados. Não pronunciam nada além do óbvio deixado pelos olhares iracundo de pretensão. Dinheiro em primeiro lugar. E tudo o que fazem pra chamar a freguesia é estar ali. Me esquivo dos letreitos, os olhos, que são como uma propaganda. Sento de frente para a figueira, alguns velhos ainda jogam dominó. Falar de velhos da praça parece um pouco redundância, espero que o dominó entre em extinção antes da minha velhice chegar.

A praça parece habitada por esse seres noturnos que somente sabemos que existem se nos propusermos a viver seu mundo. As bichas mesmo, acabam de sair com dois clientes, um pra cada. Por coincidência o pastor resolveu calar a boca e agora toma água, parece que perdeu essa batalha. Será que um dia desitirá da guerra? Um velho semi-bêbado passa chorando baixinho passa ao meu lado. Descrições superficiais: aliança na mão esquerda, botas de bico fino igual as italianas, cigarro na mão direira já no fim, corpo caído para um lado, tem os cabelos mau penteados, porém a baraba está bem feita.

Já são mais que 21 horas, alguns velhos foram embora, o pastor se acalmou e os garotos ainda não voltaram. Um abatimento caí sobre mim, decido novamente circular pelo centro em busca de algo minimamente interessante para seguir. Circulo a figueira, outro dia um amigo propos tocarmos fogo nela, não aceitei. Desço uma das vias da praça sentido Museu Histórico de Santa Catrina. Estava reparando no cheiro incomum das plantas a essa hora da noite, elas parecem mais viva, parecem que respiram, quando me deparei com a pessoa ideal.

Um homem espiava através dos arbustos. Um homem espiava através dos arbustos e eu espiava esse homem. Uma situação estranhissíma, que de princípio achei que seria mais um dos debilmentais andarilhos da região. Um homem branco, aparência de 30 anos, vestido como um dos vendedores das Casas Bahia. Explico. Camisa branca solta do lado esquerdo, como se o indivíduo foi ao banheiro e esqueceu de recolcá-la no lugar; calça preta maior do que as pernas pedem e sapatos do tipo operário que dispensa estilo. Ainda tem a ausência da gravata e o quase-palitó, caído ombros abaixo.

O homem espiava e eu lhe espiava, uma bobagem, pensei. Não conseguia ver seu rosto, apenas o via de bunda levemente levantada, numa posição napoleônica. No instante seguinte, sem que eu pudesse planejar uma reação aquela situação estranhissíma de o espiar espiando, o homem saiu correndo por entre os arbustos e caiu na calçada que leva ao antigo terminal de ônibus da cidade, hoje frequentado por vendedoras de cochinhas à 1 real. Embalado pela excitação de ter achado alguém suficientemente doido para eu escrever, sai na mesma direção do homem.

O homem corria em sentido ao banheiro publico instalado na praça, em formato circular, que funciona a noite inteira, na correria da perseguição não consegui ver quem o homem espiva. Empolgado corri, quase, mais que ele. A ponto de chega bem atrás do homem que já havia parado e agora conversava com um negro gordo com uniforme da Comcap que parecia cuidar do banheiro publico. Caí no final da corrida bem em cima dos dois homens que conversavam, morri nesse mesmo momento, os homens me olharam, desviei a cara para o outro lado. Não sabendo o que fazer corri ao telefone público que ficava à poucos metros dos dois. Me acalmei, olhei os dois por cima do ombro. O branco parecia agitado, olhava em volta de forma rápida evitando encarar o negro gordo. Parecia lhe cobrar algo, mesmo próximo não conseguia ouvir sua conversa.



Cena 3
No telefone fiquei sem saber o que fazer, na bobeira do momento liguei para meu próprio celular. Esperei tocar, vi o número e deixei o orelhão. Fui ao próximo que ficava a uns 15 metros dos homens na porta do banheiro, que ainda conversavam. Peguei meu celular, fingindo estar usando o orelhão, e liguei para o orelhão anterior. Um toque, dois toque, pretendo com isso que o homem branco, agitado, atenda o orelhão, três toque, não sei bem o que ganhar com isso. Fora a excitação de não estar mais sentado ouvindo um pastor capenga balbusiar bobagens divina, a brincadeira está valendo a pena.

O homem branco caminha rapidamente até o orelhão e o atende. Meu coração gela, sinto um medo de segurar o celular, é como se ele estivesse perto de mim. Como se ele podesse me ver ou saber que sou eu. Desligo assustado, sinto um alívio grande, mesmo sabendo muito pouco desse homem tenho medo. O conheço visualmente a pouco menos que 10 minutos, mais sua atenção rápida, sua agitação no olhar, seu andar estereotipado, do tipo marginal, sua corrida através dos arbustos, provocaram em mim uma receptividade pouco agradável dessa pessoa.

O homem parece xingar, bate o telefone com certa impaciencia, acho até que falou algo baixinho, voltou para o lado do velho negro e gordo, vejo agora que esse segura uma chave do tipo inglesa na mão, será que é uma forma de proteção? Voltam a conversar, gostei da idéia de tirá-lo do sério e volto a ligar novamente. Ainda sob o orelhão, pego meu celular e ligo novamente para o telefone público anterior. Vários toques e o homem branco de andar manqué volta a atende-lo, dessa vez, dessa vez não desligo.

Tudo mudo. Não ouvia nada e nem tinha coragem para dizer nada. Observei que o homem havia atendido o telefone e estava parado sob ele, no meu fone nada se fazia ouvir. Será que o homem realmente havia atendido? E nesses pensamentos sob um surto que por alguns instantes me tirou do chão, naveguei no silêncio daquela ligação na expectativa de que do outro lado havia algém que eu não conhecia, nem desejava conhecer, alguém que pelos contatos visuais sorateiros me parecia amedrontador e levantino. E nesse surto de expectativa fui surpreendido com um firme “Quem é?”. A excitação pelo desconhecido passou e fiquei apavorado, sua firmeza na voz parecia denunciar que ele havia me visto, sabia quem eu era, onde eu estava, parecia que eu é que estava sendo espiado.

Fora minha pretensão de não manter contato com o homem, não consegui nada pronunciar pois tinha meu corpo inteiro congelado e imóvel de tensão. A pergunta se repetiu outras duas vezes e a cada pronuncia minhas pernas bambeavam, minha garganta secava, meus olhos cresciam. Desliguei. Agora o homem olhava em volta, como se observasse alguém suspeito que pudesse ter disparado aquelas ligações. Orelhão amigo, me encolhi dentro dele, achei melhor me acalmar e deixar que ele também se acalmasse. Mas não foi o que aconteceu, novamente o homem disparou a correr, dessas vez em sentido a rua Conselheiro Mafra, sentido ao pagode do Mercado Municipal.


Cena 4
Excitei em seguilo, sabia que alí havia o que eu estava procurando na minha busca destemperada por uma pessoa minimamente interessante. Mas onde eu estaria me metendo? Quem será essa pessoa que mantém relações noturnas com guardas de banheiro público suspeito e perambula pelas ruas em disparada. Senti fome, mas o chocolate comprado foi pouco, fiquei ainda pelo orelhão observando o homem desaparecer na esquisa e resolvi segui-lo, um pouco mais mais de longe.

Em disparada o vi alcançar um jovem, esse sim, com pinta de oba-oba dos camaradas que nesse horário se preparam para a caçada nos El Divinos da vida. Droga barata sempre se encontra nessa região. E estava certo, ou ao menos foi o que imaginei. Meu perseguido o acompanhou e rapidamente apanhou de suas mãos algo que imaginei ser uma troxinha, ou 2 gramas. Colocou no bolso. Os dois se separam, o mais jovem vai em direção a rua Trajano sentido escadaria, quando chego mais perto reparo mais. Tem os olhos esbugalhados como num desenho animado, também é branco porém muito magro para suas roupas largas que denunciam que esse é mano.


Procuro passar com discrição, minha atenção maior é com o meu perseguido original, que caminha rápido em direção ao pagode que acontece no meio do Mercado Municipal. Ele olha rápido em volta, como se buscasse alguém, inclusive para trás. Tenho a sensação de que sabe que o estou seguindo. Ele para, me engano, ele não está indo para o pagode, está agora segurando o braço esquerdo de um outro homem, que estava logo a frente e ele conseguiu  alcançar. Segura o braço com iracundo, parece cobrar algo dele. Aponta o dedo na altura de seu rosto. Parece dizer “sua bicha eu quero meu dinheiro”, ao menos é o que eu imagino vendo esse novo ‘amigo’ do meu perseguido.

Ele segura uma sacola de mercado na mão, tem a bariga rechonchuda, a pele morena escura, os pés remetem a Tarcila do Amaral, e a camiseta apertadinha denuncia uma delicadeza maior do que a permitida até mesmo para uma classe pouco esteta, da qual ele aparenta ser. Tem a boca mole ao falar, esboça um sorriso leviano e diria até tenso, pois o homem lhe segura o braço e não tira o dedo do rosto. Ao mesmo tempo ele parece controlar a situação. Com o braço direito alisa o ombro do meu perseguido, parece tentar acalma-lo ou, no meu pensamento mais furtivo, parece negociar uma saída boa para ambos do problema. Se é que me entendem.

Meu perseguido se acalma e larga o outro. Olha para os lados, acho que me viu. Faço cara de árvore. Em minha mente formulo meia duzia de hipóteses sobre quem seria essa figura noturna, marginal e amedrontadora que sigo em rastro. Sinto uma pontada de medo, se mamãe soubesse certamente soltaria um berinho caracteristico. 

Da ponta de onde estou vejo os dois seguirem caminho ao lado mais mau cheroso do mercado, o dos peixes. O que vigora em mim é a idéia de que estou seguindo um traficando irado e possivelmente em apuros, quem sabe ele esteja devendo para alguém. Quem sabe esteja em um mal dia. De longe os observo, se perderem no meio da multidão escura do pagode. Matenho distante por puro medo e satisfação. O que vi me saciou. Ainda os procuro no meio do samba alto, e das peles morenas e suadas que mexiam os pés com formigamento. Os perdi, talvez tenha sido melhor assim, a ousadia, mesmo que possível imaginária, uma vez que havia indícios de ser ele um traficante, não ousaria a correr o risco de ir morar com Tim Lopes.


Texto formulado para a disciplina de Estética e Cultura de Massa, em novembro de 2008.
Texto formulado para a disciplina de Estética e Cultura de Massa, em novembro de 2008.