Jornalismo
(texto não editado)
Cena 1
Bananinha com cobertura de café e chocolate, rico em fibras, também no sabor morango e coco, 74 kal, "coisa de bicha". Ótimo. Se vou ficar a noite inteira atrás de alguém porque não passar comendo?. “Ele não pagou a conta, fiquei dois meses esperando e nada”. Pigarro “Não tenho cartão Xandi”, ela pareceu nem ouvir, em seguida pega minha moeda e devolve 15 centavos, o mercado está fechando. Sete e meia da noite, vejo que meu celular está sem sinal, sempre nesse mercado acontece isso. Na última vez foi para comprar manga, eu o professor de dança e a secretária, bem diferente desse momento.
O samba ao longe, a voz do cantor, com seu canto senoidal, atinge minha memória com as letras de Noel Rosa. Saio da rua Vidal Ramos, pego a Trajano. Penso fazer nada é bobagem, se ociedade provoca atenção estou ficando maluco pois tenho vontade de dormi por não ter um objetivo claramente detalhado, penso em quem colocou tais idéias nela. Só quando acabar a noite. Um casal passa ao meu lado, acabaram de sair da aula. Caminham na direção de todos. Ela com cara de frígida infringida, se deixa abraçar aristocraticamente como se possuída, usa uma calça jeans e agasalho branco com pelos na toca.
Ele com cara de Rei Nagô excitado anda muito bem. Resmungam palavras melosas enquanto a mão dele caminha sordidamente pelas nâdegas dela. Tudo me lembra um touro mecânico ereto e saltitante. Semáforos continuam funcionando mesmo numa noite de sexta-feira gelada em que ninguém saiu de casa. “Jesus escolheu você para ser um soldado dele, ele te ama e deseja salvar o máximo de alma possível”. Aglair novamente me vem na cabeça. “Tô passada, me tirem dessa cruz”. O ilógico discurso divino, salve sua vida nada de sibaritismo. Ao lado do pastor de fala peremptória, andar firme e racionalidade mínima, dois garotos de programa na praça da figueira. Engraçado, parecem competir pelo mesmo público.
O pastor é o capeta aos olhos de quem frequenta aquela região nesse horário, chamando para uma vida de sacrifícios, devoção, de reprodução do manual bíblico, das simplificações paliativas de deus, da moralidade. Os garotos de programa são os anjinhos, oferecem o céu por pouco mais que o valor de um litro de leite, dão tudo que a carne é possível de receber de prazer e em troca não cobram devoção nem fidelidade, amanhã é possível visitar outros, além de um mínimo de sacrifício físico. O céu é o limite.
Suas armas na batalha pela freguesia são diferentes. O pastor grita, clama por uma atenção não desejada, é espalhafatoso, indelével, anda de um lado para o outro tentando convenser os que passam. Tem olhar ligeiro, capta os meus e designa para mim suas palavras, a noite começa a ficar excitante, no bom sentido.
Cena 2
Já os garotos, centáuros da vida noturna, tão batidos quanto a palavra divina, tão velhos como Maria Madalena, a versão gay da coisa toda, trabalham calados. Não pronunciam nada além do óbvio deixado pelos olhares iracundo de pretensão. Dinheiro em primeiro lugar. E tudo o que fazem pra chamar a freguesia é estar ali. Me esquivo dos letreitos, os olhos, que são como uma propaganda. Sento de frente para a figueira, alguns velhos ainda jogam dominó. Falar de velhos da praça parece um pouco redundância, espero que o dominó entre em extinção antes da minha velhice chegar.
A praça parece habitada por esse seres noturnos que somente sabemos que existem se nos propusermos a viver seu mundo. As bichas mesmo, acabam de sair com dois clientes, um pra cada. Por coincidência o pastor resolveu calar a boca e agora toma água, parece que perdeu essa batalha. Será que um dia desitirá da guerra? Um velho semi-bêbado passa chorando baixinho passa ao meu lado. Descrições superficiais: aliança na mão esquerda, botas de bico fino igual as italianas, cigarro na mão direira já no fim, corpo caído para um lado, tem os cabelos mau penteados, porém a baraba está bem feita.
Já são mais que 21 horas, alguns velhos foram embora, o pastor se acalmou e os garotos ainda não voltaram. Um abatimento caí sobre mim, decido novamente circular pelo centro em busca de algo minimamente interessante para seguir. Circulo a figueira, outro dia um amigo propos tocarmos fogo nela, não aceitei. Desço uma das vias da praça sentido Museu Histórico de Santa Catrina. Estava reparando no cheiro incomum das plantas a essa hora da noite, elas parecem mais viva, parecem que respiram, quando me deparei com a pessoa ideal.
Um homem espiava através dos arbustos. Um homem espiava através dos arbustos e eu espiava esse homem. Uma situação estranhissíma, que de princípio achei que seria mais um dos debilmentais andarilhos da região. Um homem branco, aparência de 30 anos, vestido como um dos vendedores das Casas Bahia. Explico. Camisa branca solta do lado esquerdo, como se o indivíduo foi ao banheiro e esqueceu de recolcá-la no lugar; calça preta maior do que as pernas pedem e sapatos do tipo operário que dispensa estilo. Ainda tem a ausência da gravata e o quase-palitó, caído ombros abaixo.
O homem espiava e eu lhe espiava, uma bobagem, pensei. Não conseguia ver seu rosto, apenas o via de bunda levemente levantada, numa posição napoleônica. No instante seguinte, sem que eu pudesse planejar uma reação aquela situação estranhissíma de o espiar espiando, o homem saiu correndo por entre os arbustos e caiu na calçada que leva ao antigo terminal de ônibus da cidade, hoje frequentado por vendedoras de cochinhas à 1 real. Embalado pela excitação de ter achado alguém suficientemente doido para eu escrever, sai na mesma direção do homem.
O homem corria em sentido ao banheiro publico instalado na praça, em formato circular, que funciona a noite inteira, na correria da perseguição não consegui ver quem o homem espiva. Empolgado corri, quase, mais que ele. A ponto de chega bem atrás do homem que já havia parado e agora conversava com um negro gordo com uniforme da Comcap que parecia cuidar do banheiro publico. Caí no final da corrida bem em cima dos dois homens que conversavam, morri nesse mesmo momento, os homens me olharam, desviei a cara para o outro lado. Não sabendo o que fazer corri ao telefone público que ficava à poucos metros dos dois. Me acalmei, olhei os dois por cima do ombro. O branco parecia agitado, olhava em volta de forma rápida evitando encarar o negro gordo. Parecia lhe cobrar algo, mesmo próximo não conseguia ouvir sua conversa.
Cena 3
No telefone fiquei sem saber o que fazer, na bobeira do momento liguei para meu próprio celular. Esperei tocar, vi o número e deixei o orelhão. Fui ao próximo que ficava a uns 15 metros dos homens na porta do banheiro, que ainda conversavam. Peguei meu celular, fingindo estar usando o orelhão, e liguei para o orelhão anterior. Um toque, dois toque, pretendo com isso que o homem branco, agitado, atenda o orelhão, três toque, não sei bem o que ganhar com isso. Fora a excitação de não estar mais sentado ouvindo um pastor capenga balbusiar bobagens divina, a brincadeira está valendo a pena.
O homem branco caminha rapidamente até o orelhão e o atende. Meu coração gela, sinto um medo de segurar o celular, é como se ele estivesse perto de mim. Como se ele podesse me ver ou saber que sou eu. Desligo assustado, sinto um alívio grande, mesmo sabendo muito pouco desse homem tenho medo. O conheço visualmente a pouco menos que 10 minutos, mais sua atenção rápida, sua agitação no olhar, seu andar estereotipado, do tipo marginal, sua corrida através dos arbustos, provocaram em mim uma receptividade pouco agradável dessa pessoa.
O homem parece xingar, bate o telefone com certa impaciencia, acho até que falou algo baixinho, voltou para o lado do velho negro e gordo, vejo agora que esse segura uma chave do tipo inglesa na mão, será que é uma forma de proteção? Voltam a conversar, gostei da idéia de tirá-lo do sério e volto a ligar novamente. Ainda sob o orelhão, pego meu celular e ligo novamente para o telefone público anterior. Vários toques e o homem branco de andar manqué volta a atende-lo, dessa vez, dessa vez não desligo.
Tudo mudo. Não ouvia nada e nem tinha coragem para dizer nada. Observei que o homem havia atendido o telefone e estava parado sob ele, no meu fone nada se fazia ouvir. Será que o homem realmente havia atendido? E nesses pensamentos sob um surto que por alguns instantes me tirou do chão, naveguei no silêncio daquela ligação na expectativa de que do outro lado havia algém que eu não conhecia, nem desejava conhecer, alguém que pelos contatos visuais sorateiros me parecia amedrontador e levantino. E nesse surto de expectativa fui surpreendido com um firme “Quem é?”. A excitação pelo desconhecido passou e fiquei apavorado, sua firmeza na voz parecia denunciar que ele havia me visto, sabia quem eu era, onde eu estava, parecia que eu é que estava sendo espiado.
Fora minha pretensão de não manter contato com o homem, não consegui nada pronunciar pois tinha meu corpo inteiro congelado e imóvel de tensão. A pergunta se repetiu outras duas vezes e a cada pronuncia minhas pernas bambeavam, minha garganta secava, meus olhos cresciam. Desliguei. Agora o homem olhava em volta, como se observasse alguém suspeito que pudesse ter disparado aquelas ligações. Orelhão amigo, me encolhi dentro dele, achei melhor me acalmar e deixar que ele também se acalmasse. Mas não foi o que aconteceu, novamente o homem disparou a correr, dessas vez em sentido a rua Conselheiro Mafra, sentido ao pagode do Mercado Municipal.
Cena 4
Excitei em seguilo, sabia que alí havia o que eu estava procurando na minha busca destemperada por uma pessoa minimamente interessante. Mas onde eu estaria me metendo? Quem será essa pessoa que mantém relações noturnas com guardas de banheiro público suspeito e perambula pelas ruas em disparada. Senti fome, mas o chocolate comprado foi pouco, fiquei ainda pelo orelhão observando o homem desaparecer na esquisa e resolvi segui-lo, um pouco mais mais de longe.
Em disparada o vi alcançar um jovem, esse sim, com pinta de oba-oba dos camaradas que nesse horário se preparam para a caçada nos El Divinos da vida. Droga barata sempre se encontra nessa região. E estava certo, ou ao menos foi o que imaginei. Meu perseguido o acompanhou e rapidamente apanhou de suas mãos algo que imaginei ser uma troxinha, ou 2 gramas. Colocou no bolso. Os dois se separam, o mais jovem vai em direção a rua Trajano sentido escadaria, quando chego mais perto reparo mais. Tem os olhos esbugalhados como num desenho animado, também é branco porém muito magro para suas roupas largas que denunciam que esse é mano.
Procuro passar com discrição, minha atenção maior é com o meu perseguido original, que caminha rápido em direção ao pagode que acontece no meio do Mercado Municipal. Ele olha rápido em volta, como se buscasse alguém, inclusive para trás. Tenho a sensação de que sabe que o estou seguindo. Ele para, me engano, ele não está indo para o pagode, está agora segurando o braço esquerdo de um outro homem, que estava logo a frente e ele conseguiu alcançar. Segura o braço com iracundo, parece cobrar algo dele. Aponta o dedo na altura de seu rosto. Parece dizer “sua bicha eu quero meu dinheiro”, ao menos é o que eu imagino vendo esse novo ‘amigo’ do meu perseguido.
Ele segura uma sacola de mercado na mão, tem a bariga rechonchuda, a pele morena escura, os pés remetem a Tarcila do Amaral, e a camiseta apertadinha denuncia uma delicadeza maior do que a permitida até mesmo para uma classe pouco esteta, da qual ele aparenta ser. Tem a boca mole ao falar, esboça um sorriso leviano e diria até tenso, pois o homem lhe segura o braço e não tira o dedo do rosto. Ao mesmo tempo ele parece controlar a situação. Com o braço direito alisa o ombro do meu perseguido, parece tentar acalma-lo ou, no meu pensamento mais furtivo, parece negociar uma saída boa para ambos do problema. Se é que me entendem.
Meu perseguido se acalma e larga o outro. Olha para os lados, acho que me viu. Faço cara de árvore. Em minha mente formulo meia duzia de hipóteses sobre quem seria essa figura noturna, marginal e amedrontadora que sigo em rastro. Sinto uma pontada de medo, se mamãe soubesse certamente soltaria um berinho caracteristico.
Da ponta de onde estou vejo os dois seguirem caminho ao lado mais mau cheroso do mercado, o dos peixes. O que vigora em mim é a idéia de que estou seguindo um traficando irado e possivelmente em apuros, quem sabe ele esteja devendo para alguém. Quem sabe esteja em um mal dia. De longe os observo, se perderem no meio da multidão escura do pagode. Matenho distante por puro medo e satisfação. O que vi me saciou. Ainda os procuro no meio do samba alto, e das peles morenas e suadas que mexiam os pés com formigamento. Os perdi, talvez tenha sido melhor assim, a ousadia, mesmo que possível imaginária, uma vez que havia indícios de ser ele um traficante, não ousaria a correr o risco de ir morar com Tim Lopes.
Texto formulado para a disciplina de Estética e Cultura de Massa, em novembro de 2008.
Texto formulado para a disciplina de Estética e Cultura de Massa, em novembro de 2008.